Canções curam

O vínculo do homem com a natureza da mulher acabará lhe dando ideias às dúzias, bem como enredos, situações, partituras musicais, cores e imagens inigualáveis – pois a natureza da mulher, o arquétipo da Mulher Selvagem, tem à sua disposição tudo o que um dia existiu e tudo o que um dia existirá. Quando ela cria, quando canta, a pessoa cujo coração ela está usando sente o que está acontecendo, enche-se com a criação, transborda com ela.

Nas mitologias, as canções curam ferimentos e são usadas para atrair a caça. Alivia-se a dor; alentos mágicos restauram o corpo. Os mortos são ressuscitados por meio do canto.

Diz-se que toda criação foi acompanhada de um som ou de uma palavra proferida em voz alta, de som ou palavra sussurrada ou pronunciada sem voz. Quem emite esse tipo de “palavra sonora” pode ter tido conhecimento ou compreensão do seu significado ou não. Considera-se que o canto brota de uma fonte misteriosa, que anima toda a criação, todos os animais, seres humanos, árvores, plantas e tudo o que ouvir. Na literatura oral diz-se que tudo que tem “seiva” tem canto.

Em quase todas as culturas, no momento da criação, os deuses dão canções ao seu povo, dizendo-lhes que seu uso irá chamar os deuses de volta a qualquer instante, que a canção irá lhes trazer o que precisarem e transformar ou eliminar o que não quiserem mais. Neste sentido, a doação da música é um ato compassivo que permite aos humanos convocar os deuses e as grandes forças até os círculos humanos. A música é um tipo especial de linguagem que realiza essa função de um jeito impossível para a voz falada.

Todos os seres humanos e muitos animais são suscetíveis a terem sua consciência alterada pelo som. Portanto, a canção entoada e o uso do coração como tambor são atos místicos para despertar camadas da psique não muito usadas ou vistas.

(Do livro: Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés)